sábado, 19 de abril de 2008

POEMA CONVULSIVO - Ritos de Espelho 10


Essa noite é de romances bizarros
Guardo uma navalha no bolso
para o caso de um flagelo


Por trás do meu rosto um medo
e por trás do medo um rosto.

Hoje estou excepcionalmente bela
com olhos de rímel e lágrimas
e cabeleira desgrenhada

E agora, de tão tarde, conto apenas comigo
para falar de mim mesma.




Ray Caesar, New Blue

Poema do livro Ritos de Espelho, 2002

INTEGRANTES DO CORO ou do puro aço inoxidável baiano: Ronaldo Braga



BEIJANDO O FIO-DE-NAVALHA
para graciela malagrida e fabrícia miranda


Eu quero o beijo da madrugada
Cantado,
em cortes, por mariposas perversas
e o corpo esquálido
da mais feia morte.

Eu quero a denegação
em mim mesmo
dos sopros suaves na agonia do nascer.

Eu quero o verde-podre
e para sempre me perder
nos sulcos,
e em teu sexo.

E em noites e dias e esperas
eu sou o nada contemplado
nos teus olhos violetas.

Há assim
em mim
a TUA morte.

E a beleza
tua,
apenas uma ofensa
nas turbulentas festas de Baco.



Ronaldo Braga


A morte de Orpheu - Emile Levy

terça-feira, 1 de abril de 2008

INSÔNIA - Poema 07

                                                                    INSÔNIA

                                                                                                                            (rascunho poético)
Seria feliz se pudesse dormir.
Esta opinião é d’este momento, porque não durmo.
Tenho uma indigestão na alma.
         (Fernando pessoa)            


A paixão, essa cidade forjada de alfinetes.
...
Há uma porta, e eu me nego.
...
Há tanto me custou costurar minhas córneas,
Carregar meus pés quase em necrose
E caminhar sobre os ossos de minhas canelas.
...
Fecho as portas por trás de mim, por onde passo
E vou ouvindo pancadas
De um íntimo que me perturba:

– Sou estranha! Me abandonem todos!


(Meu grito é uma súplica que mente.)
...
Não tenho nenhum deus para onde levar minha alma.
Apenas sorrio aos meus avós, de mãos erguidas:

– Sim, (Deus), acredito!

E eles seguem tranqüilos para a morte.
...
Continuo.
Corredores, salões de bailes, catacumbas.
Fecho as portas.
...
E todos os íntimos me pedem notícias.



Klimt, Bauergarten mit Kruzifix - 1911-12



Je serai heureux si je pouvais dormir.
Cet avis est propre à ce moment, car je ne dors pas.
Mon âme souffre d'indigestion.
(Fernando Pessoa)

La passion, c'est cette ville forgée dans des épingles.
...
Il y a une porte, et je m'y refuse.
...
Il m'a tant coûté de coudre mes cornées,
Porter mes pieds presque nécrosés
Et marcher sur les os de mes chevilles.
...
Par où je passe, je ferme les portes derrière moi
Et j'entends alors les battements
D'un for intérieur qui me perturbe:


– Je suis bizarre ! Abandonnez-moi tous !

(Mon cri est une supplique qui ment.)
...
Je n'ai aucun dieu à qui porter mon âme.
Je souris à peine aux grands-parents, les mains levées :


– Oui, (Dieu), j'y crois !


Et ils s'avancent tranquilles vers la mort.
...
Je poursuis.
Couloirs, salons de bal, catacombes.
Je ferme les portes.
...
Et tous les intimes me demandent des nouvelles.



Ray Caesar, Wife

frabrícia miranda
inédit

traduit du portugais (Brésil) par pedro vianna


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...