sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

JUDAS - poema 13

JUDAS

Há sempre essa cor enorme sobre os olhos a que eu chamo de céu
E eu tão entregue às lembranças do que, 
Em mim, sempre esteve inteiro e inalcançável
E era corda e pescoço e equilíbrio tenso,
Resto de balanço voejando no espetáculo de silêncio de uma praça.
Tudo a que meus olhos se destinam, 
Casa dispersa, caminho súbito, paisagem traída;
E é suave o que de mim pende das mãos, 
O tempo arenoso de redimida espera.
Se o gesto é incompleto e o coração fora imperfeito,
Sendo fiel à infidelidade que compartilhamos, e que é minha, 
        a recebida e a ofertada,
Estamos íntimos como dois noivos:
Deus, meu reencontrado, abismo e abismo, e puro tempo restante.
Vedes aquelas portas? Apenas uma poderá ser aberta a cada noite.
Houve quem, trespassando todos os trincos, deixasse de ver que,
No último vestíbulo, a janela, a cadeira deixada de viés e o resto
Ocupado pelo amplo vazio amoroso iluminado, 
Compunham a cena final de minha alma.
Aquele que nos marcou para sempre com um beijo, recebido e ofertado,
Mais minha que vossa, adorada – boca sem qualquer paga.


Klimt - A morte e a vida

O PRESÉPIO - poema 12

Ismael Nery

O PRESÉPIO
(os presentes – a estrebaria – a estrela movente)

I
O morto na paisagem está diante do sol.
Ainda há pouco, seus recentes, honestos amigos vieram de visita
Trazendo os últimos acontecimentos esportivos
E as saudações sinuosas das namoradas que tivera e que ainda eram quase presentes.
E foram tão pouco, mas estavam sempre sorrindo e joviais entre os cabelos.
Recebera também a irmã e, com ela, a infância e alguns pasteizinhos
Do céu da mãe enferma cobrando visitas.
Adolescentes que passavam trouxeram excitações dos últimos filmes
E revistas de cenas indecentes, e era plena tarde.

Plena a tarde do morto diante do sol na paisagem.
Lembrara-se da eterna diva, do desejo de antes, e de como era o corpo na cama.
Mas o corpo exatamente, alimentado, limpo, escanhoado, e que é vestido
De linho e caxemira para a comunhão.
E um que era pequeno, esguio e branco numa caixa de música, varanda e claraboia
Que, em torno do eixo, era viva no abrir da porta.
Então quase dormiu por imitar como se encolhem as pernas, no sono.

II
Na paisagem, o morto era apenas ideia fustigada. E eterno o fenômeno do sol.
Animais de pastagem passaram moles, cheios de massa.
Animais de carga passaram velhos de sacrifícios - e dignos por conhecerem a chuva -, e o sol,
Na paisagem acontecendo, derretia o espaço de terra e calor suspenso
Em que rodas rolam gelatinosas desfazendo-se
Sobre o caminho por onde todos passaram pretejando o mato,
Vergando o talo daquilo que, sendo verde, precisa suster.

Nenhuma noite mais alivia a paisagem e o morto de ideias.
E o sol dá continuidade ao que, aos poucos, na paisagem se extingue.
O morto na paisagem cataloga todas as coisas últimas que o sol abate.
O leão teve toda uma página, apenas um e último leão. 
Entre dez repetições da palavra juba.
Entre vinte repetições da palavra urro. Uma ocorrência da palavra carne.
O cão, especialíssimo, teve verbete ilustrado e, aos pés do morto, adormeceu na paisagem.

III
O morto na paisagem está rijo em meio-fraque, 
Circundado de crescente e perfumosa mirra, aguardando
O rastilho em guipure e pérola do longo véu da última chegada.
Essa que passou e já vai longe – então liberta do cruel
Eixo imóvel de dez mil livros em brochura empilhados
(de vozes insistentes nas lombadas, tal rostos
de família suspensos num corredor que nos leva à espiral da escada,
a suscitar a memória que se guarda sem ser nossa, e, junto, toda a casa
pendente sobre a cabeça em fadiga e íntimo romance biográfico)
Pela pequena caixa de quarto e sala em que reinava, esguia e branca,
A mulher dos sonhos, envolta em arminho, varanda e claraboia;
Desde sempre esgueirando o vazio deixado aos seus cuidados, silenciosa como
Algum vago, baço pensamento a mais de alguém que existe, sob o sol na paisagem, fustigado.
Essa lembrança que, inferno e mármore, resiste a toda história –
E segue de ossos fracos, ao cruzar a porta.



Ray Caesar - Arabesque 2009
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