sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

JUDAS - poema 13

JUDAS

Há sempre essa cor enorme sobre os olhos a que eu chamo de céu
E eu tão entregue às lembranças do que, 
Em mim, sempre esteve inteiro e inalcançável
E era corda e pescoço e equilíbrio tenso,
Resto de balanço voejando no espetáculo de silêncio de uma praça.
Tudo a que meus olhos se destinam, 
Casa dispersa, caminho súbito, paisagem traída;
E é suave o que de mim pende das mãos, 
O tempo arenoso de redimida espera.
Se o gesto é incompleto e o coração fora imperfeito,
Sendo fiel à infidelidade que compartilhamos, e que é minha, 
        a recebida e a ofertada,
Estamos íntimos como dois noivos:
Deus, meu reencontrado, abismo e abismo, e puro tempo restante.
Vedes aquelas portas? Apenas uma poderá ser aberta a cada noite.
Houve quem, trespassando todos os trincos, deixasse de ver que,
No último vestíbulo, a janela, a cadeira deixada de viés e o resto
Ocupado pelo amplo vazio amoroso iluminado, 
Compunham a cena final de minha alma.
Aquele que nos marcou para sempre com um beijo, recebido e ofertado,
Mais minha que vossa, adorada – boca sem qualquer paga.


Klimt - A morte e a vida

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