terça-feira, 1 de abril de 2008

INSÔNIA - Poema 07

                                                                    INSÔNIA

                                                                                                                            (rascunho poético)
Seria feliz se pudesse dormir.
Esta opinião é d’este momento, porque não durmo.
Tenho uma indigestão na alma.
         (Fernando pessoa)            


A paixão, essa cidade forjada de alfinetes.
...
Há uma porta, e eu me nego.
...
Há tanto me custou costurar minhas córneas,
Carregar meus pés quase em necrose
E caminhar sobre os ossos de minhas canelas.
...
Fecho as portas por trás de mim, por onde passo
E vou ouvindo pancadas
De um íntimo que me perturba:

– Sou estranha! Me abandonem todos!


(Meu grito é uma súplica que mente.)
...
Não tenho nenhum deus para onde levar minha alma.
Apenas sorrio aos meus avós, de mãos erguidas:

– Sim, (Deus), acredito!

E eles seguem tranqüilos para a morte.
...
Continuo.
Corredores, salões de bailes, catacumbas.
Fecho as portas.
...
E todos os íntimos me pedem notícias.



Klimt, Bauergarten mit Kruzifix - 1911-12



Je serai heureux si je pouvais dormir.
Cet avis est propre à ce moment, car je ne dors pas.
Mon âme souffre d'indigestion.
(Fernando Pessoa)

La passion, c'est cette ville forgée dans des épingles.
...
Il y a une porte, et je m'y refuse.
...
Il m'a tant coûté de coudre mes cornées,
Porter mes pieds presque nécrosés
Et marcher sur les os de mes chevilles.
...
Par où je passe, je ferme les portes derrière moi
Et j'entends alors les battements
D'un for intérieur qui me perturbe:


– Je suis bizarre ! Abandonnez-moi tous !

(Mon cri est une supplique qui ment.)
...
Je n'ai aucun dieu à qui porter mon âme.
Je souris à peine aux grands-parents, les mains levées :


– Oui, (Dieu), j'y crois !


Et ils s'avancent tranquilles vers la mort.
...
Je poursuis.
Couloirs, salons de bal, catacombes.
Je ferme les portes.
...
Et tous les intimes me demandent des nouvelles.



Ray Caesar, Wife

frabrícia miranda
inédit

traduit du portugais (Brésil) par pedro vianna


domingo, 24 de fevereiro de 2008

AOS GUARDADORES DE SEGREDOS - Ritos de Espelho 09

klimt, bosque de bétulas, 1912



AOS GUARDADORES DE SEGREDOS
(Desiderandum)



Busco amores violentos
quando já estou cansada
de amar e violentar-me.
Em mim,
sombras repartidas.
É noite?
eu pergunto
E já não sei
Porque há muito já não sabia
...
Posso ausentar-me de mim
Ter frio, ter febre, ter fúria...
...
Essa vontade anêmica
De invadir jardins descalça
E tocar fogo no que for inflamável.


klimt, Veritas

Poema do livro Ritos de Espelho, 2002

sábado, 23 de fevereiro de 2008

ADÁGIO DE RESPOSTA - Ritos de Espelho 08

Camille Claudel - a valsa


ADÁGIO DE RESPOSTA
(para um ensaio poético sobre o Adágio de Tomaso Albinoni)




Pensei sobre os dias que se foram
e em toda poeira em meus cabelos
em toda finura das coisas cortantes
fio de navalha
por onde seguiam as horas
que me lançavam
ao abismo
dos seus braços abertos.
Os silêncios são ocos e graves
E os cheiros que refaço
Queimam como tóxico.


poema do livro Ritos de Espelho, 2002

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

UM POEMA INACABADO - Ritos de Espelho 07


Entre nós, vultos submersos
Se buscam em movimentos espectrais
Sombras que choram mortes prováveis
em apartamentos labirínticos
Demônios que sepultam nos corpos,
amores primitivos.
Então ruímos no tempo
A cada gozo, a cada estrondo de dor
a cada morte dos anos
Cantamos o lirismo dos loucos
Tombamos no riso dos ébrios
Compomos juntos os últimos cigarros
Traçamos a arquitetura do inabitável.


poema do livro Ritos de Espelho, 2002



Ismael Nery, Composição surrealista

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A MUTAÇÃO DA BORBOLETA - Ritos de Espelho 06



Armou-se um cerco em minha vida.
Quem enganará os guardiões das horas mortas?
No regaço, trago girassóis frescos
e nos lábios, feridas de amores tortos e favos.
É tarde para esperar batidas surdas na porta ou
uma pedra lançada com doçura à janela,
um bilhete tímido pela fresta.
Mas há quem espere, paciente,
um olhar (meu) de ostra que bate nos pés,
denúncia de fogo e flor miúda.
Dou a minha mão secreta
e o amor me dá asas de borboleta
                                         irrequieta.






poema do livro Ritos de Espelho, 2002
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