Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Poema Convulsivo - Ritos de Espelho 10

-
Essa noite é de romances bizarros
Guardo uma navalha no bolso
para o caso de um flagelo


Por trás do meu rosto um medo
e por trás do medo um rosto.

Hoje estou excepcionalmente bela
com olhos de rímel e lágrimas
e cabeleira desgrenhada

E agora, de tão tarde, conto apenas comigo
para falar de mim mesma.

-
-

Ray Caesar, New Blue

Poema do livro Ritos de Espelho, 2002

Integrantes do coro ou do puro aço inoxidável baiano: Ronaldo Braga

Beijando o fio-de-navalha
para graciela malagrida e fabrícia miranda

Eu quero o beijo da madrugada
Cantado,
em cortes, por mariposas perversas
e o corpo esquálido
da mais feia morte.

Eu quero a denegação
em mim mesmo
dos sopros suaves na agonia do nascer.

Eu quero o verde-podre
e para sempre me perder
nos sulcos,
e em teu sexo.

E em noites e dias e esperas
eu sou o nada contemplado
nos teus olhos violetas.

Há assim
em mim
a TUA morte.

E a beleza
tua,
apenas uma ofensa
nas turbulentas festas de Baco.

Ronaldo Braga


A morte de Orpheu - Emile Levi

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

INSÔNIA - Poema Inédito 07

Seria feliz se pudesse dormir.
Esta opinião é d’este momento, porque não durmo.
Tenho uma indigestão na alma.
(Fernando pessoa)


A paixão, essa cidade forjada de alfinetes.
...
Há uma porta, e eu me nego.
...
A tanto me custou costurar minhas córneas,
Carregar meus pés quase em necrose
E caminhar sobre os ossos de minhas canelas.
...
Fecho as portas por trás de mim, por onde passo
E vou ouvindo pancadas
De um íntimo que me perturba:

– Sou estranha! Me abandonem todos!

(Meu grito é uma súplica que mente.)
...
Não tenho nenhum deus para onde levar minha alma.
Apenas sorrio aos meus avós, de mãos erguidas:

– Sim, (Deus), acredito!

E eles seguem tranqüilos para a morte.
...
Continuo.
Corredores, salões de bailes, catacumbas.
Fecho as portas.
...
E todos os íntimos me pedem notícias.





Klimt, Bauergarten mit Kruzifix - 1911-12


Je serai heureux si je pouvais dormir.
Cet avis est propre à ce moment, car je ne dors pas.
Mon âme souffre d'indigestion.
(Fernando Pessoa)


La passion, c'est cette ville forgée dans des épingles.
...
Il y a une porte, et je m'y refuse.
...
Il m'a tant coûté de coudre mes cornées,
Porter mes pieds presque nécrosés
Et marcher sur les os de mes chevilles.
...
Par où je passe, je ferme les portes derrière moi
Et j'entends alors les battements
D'un for intérieur qui me perturbe:

– Je suis bizarre ! Abandonnez-moi tous !

(Mon cri est une supplique qui ment.)
...
Je n'ai aucun dieu à qui porter mon âme.
Je souris à peine aux grands-parents, les mains levées :

– Oui, (Dieu), j'y crois !

Et ils s'avancent tranquilles vers la mort.
...
Je poursuis.
Couloirs, salons de bal, catacombes.
Je ferme les portes.
...
Et tous les intimes me demandent des nouvelles.


Ray Caesar, Wife


frabrícia miranda
inédit

traduit du portugais (Brésil) par pedro vianna
---
poema do livro inédito e inacabado O cirandeiro das Facas

Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Aos guardadores de segredos (poema ritos de espelho 09)

klimt, bosque de bétulas, 1912



Aos guardadores de segredos
(Desiderandum)

Busco amores violentos
quando já estou cansada
de amar e violentar-me.
Em mim,
sombras repartidas.
É noite?
eu pergunto
E já não sei
Porque há muito já não sabia
...
Posso ausentar-me de mim
Ter frio, ter febre, ter fúria...
...
Essa vontade anêmica
De invadir jardins descalça
E tocar fogo no que for inflamável.



klimt, Veritas


Poema do livro Ritos de Espelho, 2002

Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Adágio de resposta - (poema ritos de espelho 08)

Camille Claudel - a valsa

Adágio de Resposta
(para um ensaio poético sobre o Adágio de Tomaso Albinoni)


Pensei sobre os dias que se foram
e em toda poeira em meus cabelos
em toda finura das coisas cortantes
fio de navalha
por onde seguiam as horas
que me lançavam
ao abismo
dos seus braços abertos.
Os silêncios são ocos e graves
E os cheiros que refaço
Queimam como tóxico.


poema do livro Ritos de Espelho, 2002

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Um poema inacabado - poema Ritos de Espelho 07


Entre nós, vultos submersos
Se buscam em movimentos espectrais
Sombras que choram mortes prováveis
em apartamentos labirínticos
Demônios que sepultam nos corpos,
amores primitivos.
Então ruímos no tempo
A cada gozo, a cada estrondo de dor
a cada morte dos anos
Cantamos o lirismo dos loucos
Tombamos no riso dos ébrios
Compomos juntos os últimos cigarros
Traçamos a arquitetura do inabitável.


poema do livro Ritos de Espelho, 2002



Ismael Nery, Composição surrealista

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Sobre os comentários recebidos pela publicação de "A valsa dos meus vestidos"

Eu agradeço bastante por seu texto, Thiago, sobre um suposto poder que teriam, os meus versos, de ressignificar as vidas de quem me lê. Um carinho que me deixa mesmo feliz e eu tento deixar que apenas a moça Fulana se emocione e explore suas próprias emoções neste blog, mas aí acho que estaria seguindo os planos de minha amiga bela Renata Belmonte, mas, é mesmo impossível, quando o material é feito das mais descabidas confissões, é mesmo impossível não criar uma espécie de máscara, uma personalidade qualquer que trabalhe uma emoção ou uma vida que é apenas minha, mas dela faça outra coisa (e aqui já entra a fala perspicaz do Ronaldo sobre os meus textos)... E isso já existe desde Ritos de Espelho. Há uma outra criatura, minha sombra talvez, que manipula os materiais que encontra dispersos nessa bagunça bem esquisita de ser alguém, de ser mulher, de ter 28 anos, de ser tantas expectativas, de ser cada coisa que amigos, desafetos e desconhecidos enxergam como uma figura real, e que não é menos real que ter nascido menina, numa manhã de quinta-feira, primeiro de março, no subúrbio do Rio de Janeiro, em pleno calor, gordura e vidinha "marromenos"... É minha vida, mas já é uma outra coisa que eu nem mesmo vivi, que já é completamente diferente e aí já é Fulana quem toca, quem experimenta, quem forja, quem manipula, quem joga ... e foi o Drummond quem me ofereceu esse meu Golem, essa Fulana, saída de uma ópera ou de um teatro barroco, que a tudo exagera e devora e rasga... Conversas sobre escritas, aparições, encontros e farsas que sempre tenho com Renata Belmonte e Vanessa Buffone, e concordamos que nunca sabemos o que foi verdade e o que foi só mais um embuste dessa coisa estranha de se existir num corpo único e numa única história que se diversifica em versões tão contrárias, como numa sala de espelhos ou numa casa de palavras...
-
-
E Fulana diz mistérios,
diz marxismos, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
..
E sequer nos compreendemos.
..
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
..
Fulana às vezes existe demais;
até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
..
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
..
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
..
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.
..
(O Mito, Carlos Drummond de Andrade)
..
..
Eu só tenho a agradecer aos que lêem o que mostro por aqui.
-
-
-

Inaê Sodré no recital Fêmeas, Teatro Sesi, 2007

foto: Wagner (Pyter)

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

A mutação da borboleta - poema de Ritos de Espelho 06

Armou-se um cerco em minha vida.
Quem enganará os guardiões das horas mortas?
No regaço, trago girassóis frescos
e nos lábios, feridas de amores tortos e favos.
É tarde para esperar batidas surdas na porta ou
uma pedra lançada com doçura à janela,
um bilhete tímido pela fresta.
Mas há quem espere, paciente,
um olhar (meu) de ostra que bate nos pés,
denúncia de fogo e flor miúda.
Dou a minha mão secreta
e o amor me dá asas de borboleta
irrequieta.





poema do livro Ritos de Espelho, 2002

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

A valsa dos meus vestidos - Poema inédito 06



A valsa dos meus vestidos
ou
Medéia: a noiva premonitória
a Carino Gama
---
Eu já não sou a que suspende os vestidos
e já nem sei se os tenho alinhados
para as minhas bodas.

...
Não quero mais sair de tua casa
e plantei um girassol onde o vento é mais ameno.
Meus pressentimentos murcharam no seco dos teus lamentos
e a fruta que guardava
escondida no côncavo das mãos.

De mim, fiz o que querias
Mas veio junto outra parte daquilo que juntei entre os dedos.
Por isso, tenho esse jeito de olhar adiante do que existe.

Passei o meu tempo a fiar anjos que te protejam
nas canções que aprendi com minha avó
e com todas as noivas que vieram antes dela.
...
Eu já não sou a que suspende os vestidos
e já nem sei se ainda os tenho alinhados
para as minhas bodas.


Klimt - Esperança II 1807-08

poema do livro inédito e inacabado O cirandeiro das facas

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Templários - poema inédito 05


Caminhei neste fim de noite
como uma morta sem melancolia;
apenas eu, a ferida aberta de tua cama,
a que soluçava pelo socorro da palma da mão de Deus.
E eu adorando teu nome, vinda de tantos tormentos
de mãos cansadas estendidas de derrubar dinastias,
adorando teu nome, como um segredo divino.
E eu, pomba-rapina, aprendi o silêncio
que teus olhos impunham.
Calei de mim o que havia sido minha alma
Para deitar em teu corpo minha pele.
Suspensa, sem Deus, vestida de todas as chaves
para as quais não há nenhuma porta
esperei a pão e água por cada rasgo de suas mãos na minha alma;
e a cada instante, me era revelado um teu novo e último nome.



poema do livro inédito e inacabado O cirandeiro das facas

vertumnus e pomona - camille claudel, 1905