quarta-feira, 4 de maio de 2011

O CISNE - poema 15

O CISNE

Entre o quarto e o mito de toda valsa calma e noturna,
O cisne branco ainda resiste à morte, de asas escarpadas
Estendidas por sobre as paredes, e a carne tenra de sua 
                                            [mágica sombra espalhada.
Feliz e líquida é a varanda até a balaustrada envelhecida,
O apartamento levíssimo que não resiste e segue, fantasmático 
                                                                                 [suspense,
Sonda palmilhando o vão para trás deixado, quando todos 
                                                                                   [mudaram,
Adultos e desfeitos, e um pequeno espectro que lhes servia de 
                                                                         [filha acalentada.
“Apenas eu morro” – dissera a criança ao que se movia na 
                                                         [casa, e era o dia chegado,
E quando desceram as escadas, adultos e desfeitos, já eram 
                                                    [aquilo que antes tinham sido.
Restara o cisne intenso pousado sendo vestígio
De dois corpos galgos em longa fadiga de um depois sempre 
                                                                                    [constante,
E o tempo aberto que errara ao ser antes, pois há sempre as 
                                            [coisas que se chamam desperdício,
Restando também a casa por inteiro desistida.
Resta agora a pequeníssima cabeça adunca
Formada, pluma por pluma, da ternura e graça
De dois travesseiros ladeados
E de um raro toucador sob os singelos pertences de louça e 
                                                                                          [prata;
Resta o cancro rosado sob os olhinhos duros de um viúvo,
Restam miúdos os injustos dedos de dinossauro no assoalho, 
                                                         [tilintando por toda a casa;
Corredores, quarto e salas de sancas adornadas,
E a varanda tornada líquida, serena, e o denso e amplo vazio e 
                                                                                       [silêncio
Do havido eco de amor humano dos dias com as noites no 
                                                                                    [encalço,
Puro restante do feliz eterno inseparável.



7 comentários:

Anônimo disse...

Oi foi a 3ª vez que li o teu espaço online e gostei tanto!Bom Projecto!
Até à próxima

Fulana Miranda disse...

Tenho recebido comentários que só chegam ao meu e-mail, como notificação, mas que não aparecem publicados no blog, embora tenham sido registrados pelos comentaristas e leitores. Não sei qual o problema, mas peço desculpas por não ter como responder.

Hilton Valeriano disse...

Prezada Fabricía, já conversei com o Henrique...alguém deve ter usado seu perfil... Aproveito para elogiar seu belo blog e seus poemas. Um abraço.

Anônimo disse...

Era esse o vídeo que eu assistia. A entrada brutal da guitarra sempre me impressionou, além do jeito melancólico da canção. Ouvi agora e senti vontade de chorar. Sinto sua falta de um modo absurdamente tenso. Um buraco na boca do estômago. Sinto sua falta. Porque sei que te amo. Sinto muito sua falta em tudo. E é tão difícil ser feliz sem vc sem me sentir mal, como que traindo a pessoa amada... Hoje eu me senti feliz, mas de repente lembro que vc já não está mais em minha vida, e renego a felicidade, e acho-a superficial, sem brilho - em verdade sem o brilho dos seus olhos...
Eu fiquei tão preocupado contigo durante essa greve. Vc trabalha longe de casa. Pensei muito nisso.
Beijo.

http://www.youtube.com/watch?v=XFkzRNyygfk&ob=av2e

Anônimo disse...

QUERO TE VER! ESFORCE-SE UM POUCO E SABERÁ QUEM É.

Poeta Silvério Duque disse...

‎Fabrícia Miranda,

O prazer estético deve sempre ser um prazer da inteligência; teus textos provam isso pelo cuidado que tens com as palavras (o poeta deve cuidar da palavra, valorizá-la em suas formas, sons e sentidos... e eu não diria um obviedade dessas se não soubesse existir ditos "poetas" que o não fazem); e com a verdade implícita em cada uma delas...pois "o tempo aberto que errara ao ser antes/ pois há sempre as coisas que se chamam desperdício/restando também a casa por inteiro desistida", não é? Com o tempo tua poesia amadurecerá mais porque ela pode amadurecer - não há em teus versos nenhum indício de que, futuramente, eles pequem, mas podem vir a pecar, evidentimente, se o cultivo e o cuidado com eles se lhe escaparem... cuide para que isso não aconteça...

Abraços deste humilde poeta e admirador,

Silvério Duque

Fulana Miranda disse...

Às vezes, a solidão é um grande desperdício que nos outorgamos, ou alguém a nós. O cisne branco num quarto é como a rara beleza que talvez seja apenas invisível para os olhos de quem mais se queria, e é como uma espécie de maldição íntima, porque ele sempre estará ali no quarto onde a cama boia imensa apenas para que haja a grande distância do despropósito. O cisne branco era como a imagem exata e fantástica do que me trouxe até aqui.

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