quarta-feira, 17 de outubro de 2007

ESTATUÁRIAS - poema 01

Gustav Klimt - Serpentes aquáticas

ESTATUÁRIAS

Parce que vous êtes la femme,

l'Eden de l'ancienne tendresse oubliée (Paul Claudel)


Ai de nós, mulheres feias!
Ai de nós, mulheres tortas! (Rita Santana)

à Rita Santana, Vanessa Buffone, 

Adelice Souza, Renata Belmonte,

Atrás de mim,
Camille grita por seus abortos.
Tento juntar minhas três faces
De modo que eu pareça ainda mais desumana
Criatura abissal de profundos oceanos
Peixes esquizóides pinçando as córneas de todos os náufragos.
Quero a confusão para os que me olham
Porque são muitos os que não me sabem.
Em minha cabeça majestosa de demoníaca trindade
Camille ainda grita, de cócoras sobre a noite,
Erguendo a mim suas mãos metalizadas.
Adiante, além da noite que se desenrola
No destrançar das tramas da minha cabeleira de possessa
De onde despencam os sonhos e os pesadelos,
Aquela dos olhos grandes toma um conhaque barato;
Como saído de contos de fazer dormir,
Um leão cochila acorrentado a um de seus punhos
Em seu pêlo de poeira e ouro, marcas de pernas fêmeas
Um arreio de fios de seda pende,
Como um adorno singelo,
Do largo dorso de besta.
Avanço na lamacenta escuridão do entre-sono
Com o meu rosto distorcido pelo alinhavar das agulhas.
Há um baque oco contra as pedras,
Sei que são ossos
Uma cabeça de pai
Coagulando silenciosas ternuras.
Fazendo dobras em papéis
Recorto homens de mãos dadas,
Numa ciranda de infinitos herdeiros das coisas profundas
E ofereço à mulher que, ao fundo de muitas salas,
Balbucia premonições onomatopaicas.
No centro de tudo, no centro da noite,
Treze cavalos suportam seus labirintos de Creta.
O que fora feito de Camille? Pergunto
Articulando em cadência bizarra minhas três bocas.
De dentro do manicômio, espasmos de eletrochoques
Um coro de mulheres loucas, nuas, usadas,
Repete em convulsões as letras trágicas de sua loucura:
- Ai de nós, mulheres tortas...


2 comentários:

adelice souza disse...

que dizer, minha querida, destas lindas palavrinhas tuas que me chegam...que você escreve o lindo e o sensível, juntos, em forma de delicadezas e poeminhas... que você está tão bonita nesta foto quanto é pessoalmente...que eu só tenho que agradecer por estar aí, contigo.
Ofereço,então, a minha cabeça cortada, como a de São João Batista para Salomé...e um beijo como um conto.

Renata Belmonte disse...

Obrigada, linda! Vejo em você toda uma delicadeza que só encontro naqueles que chamo de amigos. Você é a parte de mim que escreve poesia. Seu blog está lindo, charmoso e misterioso como você.
Beijos,
Renata

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