quinta-feira, 22 de julho de 2010

AGNUS DEI - Poema 08

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Ao meu pai
A José Inácio Vieira de Melo

Consola a dor do teu braço, poeta
do filho ausente;
As dez pragas renovadas de teu tempo
O cesto da pressa de salvaguardar o amor do mundo
a criança que dorme,
a garupa,
as histórias dos homens que se contam quando o que é 
                                                                [homem nasce.

Desde Abraão, a pedra do sacrifício
Onde homem e homem se olham,
o velho e o feito recebem-se
cruéis e puros
num amor da quase morte,
ensinamento e cesura de Deus ante a vida
daqueles que não geram.
Oferecimento e recusa sobre a pedra:
Imolar o filho é também, definitivamente, nascê-lo;
Circunciso e teu apenas.

Deslizas tua mão amorosa entre os cabelos da serena 
                                                                       [cabeça
E na outra mão,
de toda miséria e fraqueza do afeto oleoso e profundo que 
                                                      [só os criadores sabem,
deténs o fio da lâmina suspenso na força do instante
em que os homens se fazem na violência escura do amor 
                                                                      [de Deus.

(Agnus Dei, que tollis peccata mundi, miserere nobis)

Entre tu e teu outro – o primogênito
a pedra do íntimo reconhecimento
é também a do corte
Pedra e cutelo
Instrumentos de um nascer difícil e só
que faz um pai.

(Agnus Dei, que tollis peccata mundi, miserere nobis)

Segue o deserto do pai ausentado.
Ao largo do rio, o cesto
é repleto
cascalhos,
correntes,
bocarras largas de grandes bichos d’água
e peixes,
serpentes
e sarças
e anjos
A disciplina de tudo que deve ser
-- riso, tendões, músculos e fé –

Vindo o rei, saltará de pé sobre a terra
condutor e caminho
e rosto resplandecente:
Uma criança ainda, um infante
O justo nome.

(Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem)


Ismael Nery - figuras em azul

3 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Que bom reencontrar teus versos aqui.

Fulana Miranda disse...

Levo tanto tempo para que um poema fique pronto. E mesmo assim, já alterei este depois que postei aqui. Agnus Dei começou a ser feito em 2004 ou 2005, e foi preciso que o motivo do poema cobrasse por ele para que me empenhasse em tomá-lo como concluído. Esperando por reparos e conclusões devo ter mais uns 30 em folhas avulsas que tento juntar aqui e ali. Outros poemas ficam apenas nos sonhos e não consigo resgatá-los nem pela metade, e sempre me parecem tão bonitos... Outros, são sonhos repetitivos que viram poemas sobre leões, janelas, navios... Por isso o blog parece esquecido, mas apenas parece, ao menos para mim e meus avulsos.

Ana Claudia disse...

Cada um encontra seu próprio caminho com seus versos. É bonito saber que tua criação demora e que o que estou vendo vem de tanto tempo... Este é forte. Estou gostando do que escreves.

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