domingo, 13 de março de 2011

A INSÔNIA DE LADY MACBETH (Herética) - poema 14

Edward Burne Jones - O último sono de Arthur

A INSÔNIA DE LADY MACBETH
(A noiva herética)

Vejo-te dormir como quem olha um precipício:
Meu rosto perplexo sobre teu rosto, suspensa máscara,
E olhos vidrados no encalço do futuro que volteia nas tuas pálpebras;
Busco pela noite da indefinição dos teus traços
Sombra seguida de luz esbranquiçada que se infiltra da janela.
Espantado, no entressonho, uma floresta inteira, de olmos e ciprestes,
Erguida em teus olhos, repentinos, quando se abrem
Para outro sonho que é a brancura debruçada que te mascara.
Mas a madrugada é minha e meu é o sortilégio,
O veneno, o fruto e os anfíbios saltando pelas coxas
Pantanosas onde se vê, submersa,
A potente pata de um cavalo,
Grumos e troncos envelhecidos.
Descubro em meu pulso o cheiro doce de flor
Que envelhece com a espessura da carne;
E o calor que tem a densidade rugosa da lama quando é dia
E as aves quando fazem estardalhaço no celeiro.
Bruto e exausto, dormindo em vida,
Exalação noturna de um jardim botânico envidraçado,
Carótida cedendo a qualquer faca, impunemente;
Lanças teu desafio a cada noite e amanheces, paterno,
Ajeitando o lençol sobre a nudez chamuscada do meu corpo.


John Collier - Lilith

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

JUDAS - poema 13

JUDAS

Há sempre essa cor enorme sobre os olhos a que eu chamo de céu
E eu tão entregue às lembranças do que, 
Em mim, sempre esteve inteiro e inalcançável
E era corda e pescoço e equilíbrio tenso,
Resto de balanço voejando no espetáculo de silêncio de uma praça.
Tudo a que meus olhos se destinam, 
Casa dispersa, caminho súbito, paisagem traída;
E é suave o que de mim pende das mãos, 
O tempo arenoso de redimida espera.
Se o gesto é incompleto e o coração fora imperfeito,
Sendo fiel à infidelidade que compartilhamos, e que é minha, 
        a recebida e a ofertada,
Estamos íntimos como dois noivos:
Deus, meu reencontrado, abismo e abismo, e puro tempo restante.
Vedes aquelas portas? Apenas uma poderá ser aberta a cada noite.
Houve quem, trespassando todos os trincos, deixasse de ver que,
No último vestíbulo, a janela, a cadeira deixada de viés e o resto
Ocupado pelo amplo vazio amoroso iluminado, 
Compunham a cena final de minha alma.
Aquele que nos marcou para sempre com um beijo, recebido e ofertado,
Mais minha que vossa, adorada – boca sem qualquer paga.


Klimt - A morte e a vida

O PRESÉPIO - poema 12

Ismael Nery

O PRESÉPIO
(os presentes – a estrebaria – a estrela movente)

I
O morto na paisagem está diante do sol.
Ainda há pouco, seus recentes, honestos amigos vieram de visita
Trazendo os últimos acontecimentos esportivos
E as saudações sinuosas das namoradas que tivera e que ainda eram quase presentes.
E foram tão pouco, mas estavam sempre sorrindo e joviais entre os cabelos.
Recebera também a irmã e, com ela, a infância e alguns pasteizinhos
Do céu da mãe enferma cobrando visitas.
Adolescentes que passavam trouxeram excitações dos últimos filmes
E revistas de cenas indecentes, e era plena tarde.

Plena a tarde do morto diante do sol na paisagem.
Lembrara-se da eterna diva, do desejo de antes, e de como era o corpo na cama.
Mas o corpo exatamente, alimentado, limpo, escanhoado, e que é vestido
De linho e caxemira para a comunhão.
E um que era pequeno, esguio e branco numa caixa de música, varanda e claraboia
Que, em torno do eixo, era viva no abrir da porta.
Então quase dormiu por imitar como se encolhem as pernas, no sono.

II
Na paisagem, o morto era apenas ideia fustigada. E eterno o fenômeno do sol.
Animais de pastagem passaram moles, cheios de massa.
Animais de carga passaram velhos de sacrifícios - e dignos por conhecerem a chuva -, e o sol,
Na paisagem acontecendo, derretia o espaço de terra e calor suspenso
Em que rodas rolam gelatinosas desfazendo-se
Sobre o caminho por onde todos passaram pretejando o mato,
Vergando o talo daquilo que, sendo verde, precisa suster.

Nenhuma noite mais alivia a paisagem e o morto de ideias.
E o sol dá continuidade ao que, aos poucos, na paisagem se extingue.
O morto na paisagem cataloga todas as coisas últimas que o sol abate.
O leão teve toda uma página, apenas um e último leão. 
Entre dez repetições da palavra juba.
Entre vinte repetições da palavra urro. Uma ocorrência da palavra carne.
O cão, especialíssimo, teve verbete ilustrado e, aos pés do morto, adormeceu na paisagem.

III
O morto na paisagem está rijo em meio-fraque, 
Circundado de crescente e perfumosa mirra, aguardando
O rastilho em guipure e pérola do longo véu da última chegada.
Essa que passou e já vai longe – então liberta do cruel
Eixo imóvel de dez mil livros em brochura empilhados
(de vozes insistentes nas lombadas, tal rostos
de família suspensos num corredor que nos leva à espiral da escada,
a suscitar a memória que se guarda sem ser nossa, e, junto, toda a casa
pendente sobre a cabeça em fadiga e íntimo romance biográfico)
Pela pequena caixa de quarto e sala em que reinava, esguia e branca,
A mulher dos sonhos, envolta em arminho, varanda e claraboia;
Desde sempre esgueirando o vazio deixado aos seus cuidados, silenciosa como
Algum vago, baço pensamento a mais de alguém que existe, sob o sol na paisagem, fustigado.
Essa lembrança que, inferno e mármore, resiste a toda história –
E segue de ossos fracos, ao cruzar a porta.



Ray Caesar - Arabesque 2009

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A FÉ DOS PUROS - poema 11


Klimt - O friso Beethoven


A FÉ DOS PUROS
                                                                                                      
Lá onde estão os humanos
empilhei pedras e areia
consolidei montanhas, cavernas
e caminhos sinuosos.
Estendi minha escuridão antiga
à minha escuridão futura.
Encantei serpentes,
pus a dormir em sacos,
alimentei-as com maçãs e mel.
Com clareza de voz,
li evangelhos sobre almas
menores que rostos,
e semblantes magros e profundos
que são seus próprios espíritos.
E muitos foram os que me seguiram
entre gigantes, amantes vingados,
mulheres e seus sobressaltos.
E adentramos a infinita solidão
dos que recebem as incumbências de um mundo
que não nos são ditas
entre as sarças na paisagem de nossos sonhos.
No milagre difícil,
de um silêncio do haver sem respostas,
amamos humanamente
o Deus, sem qualquer promessa,
perdoamos nossas mágoas e medos,
repreendemos a grande tentação
de aguardar o infalível socorro.
E assim, estendidos à escuridão
do grande céu do ermo distante,
somos os primeiros a enxergar,
pacíficos e sem surpresas,
a semelhança.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VINTE COLCHÕES SOBRE A ERVILHA - poema 10

VINTE COLCHÕES SOBRE A ERVILHA

Certo príncipe, por mais que procurasse, não encontrava esposa
adequada, entre as muitas princesas do mundo. Numa noite de
tempestade,uma moça foi bater à porta do palácio para pedir
abrigo. Disse que era filha de um rei. (H. C. Andersen.)


É que já não posso dizer, retorno hoje à minha antiga morada
depois da imensidão humana de teu corpo;
Conhecidos arrazoados de apaixonados
cheios de um já não poder isso e aquilo.
O amor revelando incompetências dos que são muito temperamentais
quase sempre. O meu nome em oito letras. O seu nome obscuro,
mito preservado terrível ao longo dos anos – o anjo marmóreo dos quintais
noturnos, sequestros que inventei antes da clara celebração,
para o gozo exato da princesa mais bela.
Sobrepostos, nos igualamos no meio – acima de nós, minha agudeza.
Aqui, minha ansiedade e a tua parecem apenas firmar os pés da cama sobre o chão.
E tudo o mais, esse amor, sem qualquer destreza para cálculos e engenhos
cobre de estantes as paredes onde tudo é provisório,
Alheada de nós está a casa que nos espera e que prometemos ser.
Deito minha cabeça sobre teu ombro,
como faz uma leve criança adormecida.

Ismael Nery - O encontro

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